sábado, 17 de fevereiro de 2018

CARTA ABERTA AOS MÚSICOS E CRÍTICOS DO BRASIL

Consciente das minhas responsabilidades perante a nova geração de compositores, em especial diante daqueles que me foram confiados, e perante o país a cujo desenvolvimento cultural venho dedicando todos os meus esforços profissionais, movido ainda pelo profundo respeito que tenho pelo espírito criador do homem e pela inabalável fé na liberdade do pensamento, venho responder, de público, à “Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil” que o sr. Camargo Guarnieri fez publicar, com data de 7 de novembro de 1950.
Vejamos de início o que é o tão falado Dodecafonismo, atacado pelo sr. Camargo Guarnieri com tanta veemência e com uma terminologia pouco apta a um documento artístico. Dodecafonismo não é um estilo, não é uma tendência estética, mas sim o emprego de uma técnica de composição criada para a estruturação do atonalismo, linguagem musical em formação, lógica conseqüência de uma evolução e da conversão das mutações quantitativas do cromatismo em qualitativas, através do modalismo e do tonalismo. Não tende por um lado – como toda outra técnica de composição -, outro fim a não ser o de ajudar o artista a expressarse e, servindo, por outro lado, à cristalização de qualquer tendência estética, a técnica dodecafônica garante liberdade absoluta de expressão e a realização completa da personalidade do compositor.Ela não é mais nem menos “formalista”, “cerebralista”, “anti-nacional” ou “antipopular” que qualquer outra técnica de composição baseada em contraponto e harmonia tradicionais. É errôneo, portanto, o conceito de que o Dodecafonismo “atribua valor preponderante à forma ou despoje a música de seus elementos essências de comunicabilidade”; que “lhe arranque o conteúdo emocional”; que “lhe desfigure o caráter nacional” e que possa “levar a degenerescência do sentimento nacional”. O que leva à “degenerescência do sentimento nacional”, o que se torna um “vício de semi-mortos”e um refúgio de compositores medíocres” e não contribui em absoluto para a evolução cultural de um povo, pelo contrário, é fonte de sucessos fáceis e improvisações, é o nacionalismo em sua forma de adaptação de expressões vernáculas. Essa tendência, tão comum entre nós, é responsável por uma música que lembra o estado premental de “sensação”, próprio ao homem primitivo e à criança, e que, com as suas formas gratuitas emprestadas ao colorismo russofrancês, não consegue encobrir sua pobreza estrutural e a ausência de potência criadora. O verdadeiro nacionalismo é um característico intrínseco do artista e de sua obra. Quando, porém, essa tendência se reduz a uma atitude apenas, leva tanto ao formalismo quanto qualquer outra corrente estética.Entende-se por formalismo a conversão da forma artística numa espécie de autosuficiência. Ao contrário do que afirma o sr. Camargo Guarnieri, o que me parece alarmante é a situação de estagnação mental em que vive amodorrado o meio musical brasileiro, de cujas instituições de ensino, com seu programa atrasado e ineficiente, não em saído, nestes últimos anos, nenhum valor representativo. Eis a expressão. Essa sim, de uma “política de degenerescência cultural” e não a ânsia estética, o trabalho sincero dos jovens dodecafonistas brasileiros que lutam corajosamente por um novo conteúdo e uma nova forma e que jamais desprezaram o folclore de sua terra, estudando-o e assimilando-o em sua essência. Esses jovens dodecafonistas brasileiros desbravam as regiões do inexplorado à procura de uma nova realidade na arte. Escrevem música que não admite outra lógica a não ser a que nasce da própria substância musical.É verdade que essa música, apesar de toda a sua perfeição estrutural, demonstra algo de instável e fragmentário, característico de uma crise que resulta do conflito entre forma e conteúdo, a fonte mais importante do desenvolvimento e do progresso nas artes. E é justamente nisso, no alto grau de veracidade e no realismo de sua arte, que consiste o valor humano e artístico do trabalho desses jovens compositores.Quanto aos conceitos finais dos últimos parágrafos da Carta Aberta do sr. Camargo Guarnieri, não merecem resposta por serem incompetentes e tendenciosos. Em lugar de demagogia falaciosa de sua carta, o sr. Camargo Guarnieri deveria ter feito uma análise serena e limpa dos problemas relativos aos jovens musicistas do Brasil, se é que realmente isto lhe interessa. O nacionalismo exaltado e exasperado que condena cegamente e de maneira odiosa a contribuição que um grupo de jovens compositores procura dar à cultua musical do país conduz apenas ao exacerbamento das paixões que originaram forças disruptivas e separam os homens.A luta contra essas forças que representam o atraso e a reação, a luta sincera e honesta em prol do progresso e do humano na arte é a única atitude digna de um artista.Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1950

H. J. Koellreutter 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Hino de Serra Branca

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