Consciente das
minhas responsabilidades perante a nova geração de compositores, em especial
diante daqueles que me foram confiados, e perante o país a cujo desenvolvimento
cultural venho dedicando todos os meus esforços profissionais, movido ainda
pelo profundo respeito que tenho pelo espírito criador do homem e pela
inabalável fé na liberdade do pensamento, venho responder, de público, à “Carta
Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil” que o sr. Camargo Guarnieri fez
publicar, com data de 7 de novembro de 1950.
Vejamos de início o
que é o tão falado Dodecafonismo, atacado pelo sr. Camargo Guarnieri com tanta
veemência e com uma terminologia pouco apta a um documento artístico.
Dodecafonismo não é um estilo, não é uma tendência estética, mas sim o emprego
de uma técnica de composição criada para a estruturação do atonalismo,
linguagem musical em formação, lógica conseqüência de uma evolução e da
conversão das mutações quantitativas do cromatismo em qualitativas, através do
modalismo e do tonalismo. Não tende por um lado – como toda outra técnica de
composição -, outro fim a não ser o de ajudar o artista a expressarse e,
servindo, por outro lado, à cristalização de qualquer tendência estética, a
técnica dodecafônica garante liberdade absoluta de expressão e a realização
completa da personalidade do compositor.Ela não é mais nem
menos “formalista”, “cerebralista”, “anti-nacional” ou “antipopular” que
qualquer outra técnica de composição baseada em contraponto e harmonia
tradicionais. É errôneo, portanto, o conceito de que o Dodecafonismo “atribua
valor preponderante à forma ou despoje a música de seus elementos essências de
comunicabilidade”; que “lhe arranque o conteúdo emocional”; que “lhe desfigure
o caráter nacional” e que possa “levar a degenerescência do sentimento
nacional”. O que leva à “degenerescência do sentimento nacional”, o que se
torna um “vício de semi-mortos”e um refúgio de compositores medíocres” e não
contribui em absoluto para a evolução cultural de um povo, pelo contrário, é
fonte de sucessos fáceis e improvisações, é o nacionalismo em sua forma de
adaptação de expressões vernáculas. Essa tendência, tão comum entre nós, é
responsável por uma música que lembra o estado premental de “sensação”, próprio
ao homem primitivo e à criança, e que, com as suas formas gratuitas emprestadas
ao colorismo russofrancês, não consegue encobrir sua pobreza estrutural e a
ausência de potência criadora. O verdadeiro nacionalismo é um característico
intrínseco do artista e de sua obra. Quando, porém, essa tendência se reduz a
uma atitude apenas, leva tanto ao formalismo quanto qualquer outra corrente
estética.Entende-se por
formalismo a conversão da forma artística numa espécie de autosuficiência. Ao
contrário do que afirma o sr. Camargo Guarnieri, o que me parece alarmante é a
situação de estagnação mental em que vive amodorrado o meio musical brasileiro,
de cujas instituições de ensino, com seu programa atrasado e ineficiente, não
em saído, nestes últimos anos, nenhum valor representativo. Eis a expressão.
Essa sim, de uma “política de degenerescência cultural” e não a ânsia estética,
o trabalho sincero dos jovens dodecafonistas brasileiros que lutam
corajosamente por um novo conteúdo e uma nova forma e que jamais desprezaram o
folclore de sua terra, estudando-o e assimilando-o em sua essência. Esses
jovens dodecafonistas brasileiros desbravam as regiões do inexplorado à procura
de uma nova realidade na arte. Escrevem música que não admite outra lógica a
não ser a que nasce da própria substância musical.É verdade que essa
música, apesar de toda a sua perfeição estrutural, demonstra algo de instável e
fragmentário, característico de uma crise que resulta do conflito entre forma e
conteúdo, a fonte mais importante do desenvolvimento e do progresso nas artes.
E é justamente nisso, no alto grau de veracidade e no realismo de sua arte, que
consiste o valor humano e artístico do trabalho desses jovens compositores.Quanto aos
conceitos finais dos últimos parágrafos da Carta Aberta do sr. Camargo
Guarnieri, não merecem resposta por serem incompetentes e tendenciosos. Em
lugar de demagogia falaciosa de sua carta, o sr. Camargo Guarnieri deveria ter
feito uma análise serena e limpa dos problemas relativos aos jovens musicistas
do Brasil, se é que realmente isto lhe interessa. O nacionalismo exaltado e
exasperado que condena cegamente e de maneira odiosa a contribuição que um
grupo de jovens compositores procura dar à cultua musical do país conduz apenas
ao exacerbamento das paixões que originaram forças disruptivas e separam os homens.A luta contra essas
forças que representam o atraso e a reação, a luta sincera e honesta em prol do
progresso e do humano na arte é a única atitude digna de um artista.Rio de Janeiro, 28
de dezembro de 1950
H. J. Koellreutter
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